III
Ela elevou-se no ar
A cada instante que ele
Tentava agarrá-la
Abraçava-se apenas a si próprio
Com soluços abafados pelas
lágrimas
Por fim parecia
Que o próprio Céu se abria
Ela pairava
Com os pés no ar
E o cabelo caído
Os braços estendidos
Na direcção dele
Como alguém que se está a afogar
O rosto dela oscilando entre
Sorrisos e o horror
Reencontrar um rosto na multidão,
Enegrecido pelo esquecimento –
Uma corrente submarina
Faz a mão dela acenar
A sua silhueta baloiça
Ela é apenas uma bailarina afogada
Entre tantas outras
Que abandonaram a coreografia
Para chegar ao silêncio
Onde a luz do sol navega sobre
Uma película de sais minerais
E ainda presa nos teus pulmões
Uma bolha de ar aprisionada pelas tuas costelas
E, contudo, o telégrafo ainda crepita
Num circuito fechado, em que
As guelras do coração palpam
O sabor do seu nome ainda permanece nos teus
lábios
- O eco do nome
Que prendeste à música
Antes de ela cair
Do teu rosto –
Com a tua boca imensa tinges
Tinges a água de vermelho
Enquanto mimas o nome dela
E sentes o sal nos teus olhos.
Tentas agarrar a silhueta do seu corpo
Apenas para ser tocado de raspão por uma seda
rasgada
Um leve toque do calafrio da alma
Quando o cardume volta para trás
Levantas o corpo dela do fundo do mar
A dançar
Com o rosto voltado para o outro lado
Ela pende, pesada como alguém que dorme
Nos teus braços
Distendido no espaço
Entre silhuetas que circulam
Ouve-se o vento
Que atravessa as penas
As duas aves principais
Mantêm tudo em suspenso
O sol recusa-se a nascer
O dia está imóvel parado no seu
Firmamento
Nenhuma sombra desliza
Sobre as montanhas
Também elas aguardam
Os gritos do carniceiro
Quando ela corta a cabeça
Voltam as tonturas
Frente a frente com feições
Com olhos e boca abertos
Tão estonteantemente leve
Sem o corpo
Danças a valsa com ela para trás
Pelos prados azuis-esverdeados
O cardume volta a agrupar-se à vossa volta
Conduzes o teu unicórnio
Através de uma floresta
Onde ressoa o canto dos peixes
Como numa galeria de espelhos a imagem colase
Levemente à tua pele, sentes os ossos gritar de
vidro
E o oxigénio a abandonar os dedos
Ele afia o gume das facas
Faz uma incisão por detrás de uma
orelha
Puxa de uma só vez
E começa a rodar
Enquanto mantém a lâmina junto
Do osso
E a pele da cabeça solta-se
Como uma longa casca de laranja
Afinado pelo diapasão
O crânio canta
Sobre o seu pedestal de sal.
Escorre prata da boca,
Enquanto aumenta a pressão
Agitas as pernas, como se estivesses a nadar
Cortando o espaço –
Oprimidos pelo peso das multidões
Que não querem largar
E a superfície
Está apenas a dois passos de dança –
Quando ela desliza
Tocas mil pianos de cauda
Afundados
Vês um navio com cem
Mastros
Cinquenta catedrais passam por ti arrastadas pela
corrente
Os mosaicos de vidro desfeitos
Vês o rosto dela
De novo emergido no revestimento do espelho,
a afogada recusa-se a olhar para ti
Afunda-se
Até se tornar um ponto na escuridão
Frente a frente com
feições
Com olhos e boca
abertos
Tão estonteantemente leve
Sem o corpo
Leve como dantes.
Consegues atravessar, a cabeça
rebentada –
Continua a cantar enquanto é levada pela
corrente
Segundo a lenda
Uma coroa de mirto baloiça em direcção ao
anoitecer
Os pianos de cauda tocam com velas negras
Os navios afundam-se com os cem mastros
Enterrado enquanto voava
Em todos os cantos do mundo
O dia regressa
Iluminado por uma pedra flutuante
Na margem, uma gaivota solta um grito rouco
Sobre as pedras brancas
Sinfonicamente o sono e o
esquecimento
Estão capsulados em ataúdes de âmbar
Sou azul por baixo
E duro como um rochedo